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Voo da galinha

14/03/2017

A depressão da economia capitalista no Brasil, como duramente se sabe, persiste já por três longos anos.  Neste início de 2017, assombrados com as suas consequências sociais e políticas, as forças golpistas se mostram fortemente ansiosas para ver o seu fim e, assim, o início de uma recuperação.

Alguns economistas que atuam como gargantas do golpe – e funcionários de sua legitimação – anunciam apressados que a retomada é “pra já”. Sabe-se, na verdade, em geral, que as crises do capitalismo criam elas próprias as condições de sua superação porque, ao reduzirem os salários reais, ao destruírem os capitais ineficientes, etc., engendram uma recuperação da taxa de lucro. Ora, essa “purga” é necessária, mas não se afigura suficiente para a retomada dos investimentos. É preciso que surja também, no horizonte do cálculo capitalista, uma onda de novas oportunidades de lucro.

Ora, na economia brasileira atual, há ainda muitas empresas excessivamente endividadas e com excesso de capacidade ociosa. Ademais, o câmbio voltou a ficar valorizado e as taxas de juros cobradas nos empréstimos bancários às empresas produtoras de mercadorias são elevadíssimas. Ademais, um impulso de recuperação que poderia vir do investimento público encontra-se obstado porque o orçamento do Estado está constrangido a gerar excedentes financeiros.  Em consequência, o que está de fato no horizonte da acumulação de capital no Brasil é, por um lado, a continuidade da desindustrialização e, por outro, uma relativa estagnação da economia mundial.  Diante desse quadro econômico – ao qual se soma a severa instabilidade do quadro político –, qual seria a verdadeira perspectiva da economia capitalista no Brasil?

Indo ao fundo da questão, qual seria a perspectiva das classes sociais que se enfrentam no interior dessa “economia” gerenciada por economistas arrogantes que se orgulham de saber “Economics”? Segundo Luiz Filgueiras, professor da UFBA, no artigo que aqui se republica, diante do aprofundamento em curso das reformas neoliberais, os trabalhadores em geral devem esperar um agravamento das dificuldades para se reproduzirem enquanto tais, para ganharem uma vida às vezes bem miserável. E os capitalistas, “cheios de importância, sorrisos satisfeitos e ávidos por negócios”, devem esperar, no máximo e lentamente, um retorno do voo da galinha.

O artigo encontra-se aqui: Padrão de desenvolvimento e a natureza estrutural do Voo da Galinha

Equilíbrio: fundamento ou fenômeno emergente?

14/02/2017

capa-da-revista-do-niepNeste artigo, publicado na revista Marx e o Marxismo do NIEP, quer-se mostrar que há dois modos bem distintos de apreender o movimento do sistema econômico que se organiza com base na centralidade da relação social de capital e sobre o qual se levanta e se desenvolve a sociedade moderna. Mesmo que uma delas seja plenamente dominante e que a outra permaneça quase esquecida, sustenta-se que é muito importante apreendê-las  como opostas, como antípodas, como rivais. Uma delas, para apreender a complexidade constitutiva desse sistema, toma o equilíbrio com um fundamento e, assim, trata o seu dinamismo como uma questão subordinada. A outra, ao contrário, assume que essa complexidade se desenvolve por meio de uma dinâmica turbulenta em que a ordem se configura por meio da desordem, de tal modo que o equilíbrio aparece apenas como um fenômeno emergente.

O artigo se encontra aqui: Equilíbrio: fundamento ou fenômeno emergente?

Os “comuns” em questão

30/01/2017

Em setembro de 2015, publicou-se neste blog uma postagem com o título A luta pelo comum.  Por meio livre-de-coriatdela, divulgou-se o artigo Propriedade, apropriação social e instituição do comum, de Pierre Dardot e Christian Laval. Esses dois autores, nesse texto, defendem que “o princípio do comum que emerge hoje dentro de todos os movimentos sociais (…) não se define mais em termos de propriedade”. Ele é, assim, apresentado como oposto da propriedade privada, sem ser posto, alternativamente, como propriedade pública. Na postagem que se está aqui fazendo, divulga-se uma tradução de entrevista que Benjamim Coriat deu à revista Contretemps. Nela, ele defende um conceito de “comum” distinto do anterior. De modo diferente, sustenta ele a tese de que os “comuns” são compatíveis com a economia de mercado, ainda que venham “superar a ideia de que a única forma valiosa de propriedade seja a exclusiva”. Nessa perspectiva – é bem evidente –, os “comuns” são pensados sim como uma forma alternativa de propriedade em relação à privada e à pública. De modo crucial, bem ao contrário, ela pode conviver com essas duas últimas. O que distingue, segundo Coriat, os “comuns” é forma de governança, isto é, a forma pela qual a apropriação do recurso instituído como “comum” de certa comunidade vem a ser socialmente regulada por ela mesma.

A entrevista se encontra aqui: nao-podemos-apreender-os-comuns-com-as-chaves-do-passado

Marx e Keynes

20/01/2017

capa-revista-da-sepO artigo que aqui se publica defende a tese de que há três subcampos radicalmente distintos entre si no campo da macroeconomia. E que eles estão demarcados pelas obras de Marx e Keynes. Sustenta, por isso, que duas clivagens os separam: a Lei de Say e a meta objetiva do sistema econômico. Há o subcampo da macroeconomia walrasiana em que se acolhe a Lei de Say. Há o subcampo da macroeconomia keynesiana em que se rejeita a Lei de Say para aceitar o princípio da demanda efetiva. Tal como no primeiro, aí se toma a produção de valores de uso como a meta própria do sistema econômico. Há o subcampo da macroeconomia marxiana em que se recusa tanto a lei dos mercados quanto o princípio da demanda efetiva. Para esta última, o próprio modo de funcionamento da sociabilidade capitalista põe o capital como um “sujeito automático”, de tal maneira que a acumulação de capital devém a meta própria do sistema econômico.

O texto esta aqui: como-marx-e-keynes-demarcam-o-campo-da-macroeconomia

 

Distopia Polanyiana

08/01/2017

capa-de-immaginare-il-futuroPublicamos aqui mais um texto curto de Wolfgang Streeck que trata do futuro do capitalismo. Tendo por referência a Europa, foi publicado em 2016, em italiano, no livro Immaginare il futuro, coordenado por Carlo Bordoni. Ao lê-lo, não se deve esquecer que esse autor emprega um raciocínio que vem imediatamente de Karl Polanyi, mas que tem uma origem difusa mais antiga na tradição sociológica.

Segundo esse raciocínio, a sociabilidade mercantil capitalista é extremamente eficiente e eficaz na produção de riqueza material, mas vem a ser, também, inerentemente predatória do homem, da natureza e das tradições. Ela nasce e se expande cada vez mais no interior da sociabilidade herdada – não capitalista, tendendo a desagregá-la cada vez mais, inexoravelmente. Ao fazê-lo, passa a impor a sociabilidade do individualismo possessivo e da competição desenfreada em todos os domínios da vida social, com resultados que acabam por ser desastrosos.

A sociabilidade tradicional lhe põe contenções, mas também lhe fornece uma estrutura normativa e institucional necessária à sua própria subsistência. Ora, a sociabilidade capitalista que dela se nutre só pode destruí-la. À medida que a sociabilidade tradicional vai desaparecendo, vai deixando também de conter o processo da ruína dos recursos herdados, o que também é produzido pelo capitalismo.

Nesse sentido, o neoliberalismo é entendido como a batalha final da sociabilidade mercantil capitalista para subjugar toda sociabilidade tradicional que é inerentemente comunitária. Se essa última busca a preservação dos bens comuns, a primeira é baseada em bens exclusivos e privados. É por isso que ele vê o futuro da sociedade humana sob a égide da mercantilização desenfreada como sombrio.

O texto se encontra aqui: como-sera-a-nossa-sociedade-nos-proximos-decenios

Esboço de outro socialismo

27/12/2016

1984-de-orwellO filósofo Denis Collin no texto em apenso apresenta um novo conceito de transformação social, radicalmente diferente, segundo diz, das tendências tradicionais da socialdemocracia, do socialismo cientificista e do comunismo de caserna. Originalmente escrito em francês, está aqui traduzido para o português como uma forma de contribuir para o debate sobre uma nova perspectiva para a superação do capitalismo. Essa perspectiva, mesmo sendo ainda incipiente, pretende encontrar um caminho para superar tanto o reformismo fracassado quanto o centralismo revolucionário. A inspiração para a proposta vem de uma leitura de teses de George Orwell.

O texto foi publicado na revista O olho da história e se encontra aqui: esboco-de-outro-socialismo

Crise estrutural

04/12/2016

Como se sabe, “crise” é sempre uma interrupção repentina e violenta no curso normal da existência de livro-de-mezarosum sistema. Crise econômica capitalista, nesse sentido, é uma interrupção no andamento do processo de acumulação de capital. Como também se sabe, “estrutura” é a disposição das partes num todo, isto é, o arranjo dos componentes desse todo tal como é posto pelo plexo das relações que unem as partes na formação do todo. Nesse sentido, o sistema econômico do capital é formado pelas relações sociais capitalistas, em particular e de modo central, pela relação entre o capital e o trabalho assalariado. Ora, qual é então o significado do termo “crise estrutural” que tem sido usado por alguns críticos do capitalismo? Um grande impasse na reprodução contínua desse sistema de relações sociais? No artigo aqui postado, examina-se essa questão no plano conceitual e no plano empírico. O capitalismo, como sistema mundial agora plenamente desenvolvido, passa atualmente por uma crise estrutural? Em seu desenvolvimento histórico, ele enfrenta agora mais uma barreira que pode superar (para vir a criar também, mais à frente, barreiras ainda mais poderosas) ou está encontrando finalmente o seu limite histórico insuperável?

O texto encontra-se aqui: crise-estrutural-do-capitalismo