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Limites do capitalismo

11/12/2017

François Chesnais escreveu recentemente um artigo para responder à questão – sem dúvida importante nos tempos atuais – de saber se “o capitalismo encontrou [agora] limites intransponíveis”. Assim, ele pretendeu ir (um pouco) além de Marx na investigação dos limites do capitalismo.

Ora, ele julga que esse pequeno avanço é necessário para que se possa compreender adequadamente o próprio desenvolvimento do capitalismo da segunda metade do século XX em diante e principalmente após a virada do milênio. A partir da interpretação de certos trechos do próprio Marx, ele chega a uma conclusão forte: sim, o capitalismo enfrenta agora, de fato, um limite interno e um limite externo, os quais não conseguirá mais ultrapassar.

Na nota que vai em anexo apresenta-se um comentário crítico desse artigo: A questão dos limites do capitalismo

 

 

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Estado, finança e crise

23/11/2017

O economista neokeynesiano Richard C. Koo rebatizou as recessões que vem depois das grandes crises capitalistas como “recessões de balanço” (balance sheet recessions). Argumenta que são diferentes das recessões comuns. Pois, caracterizam-se, segundo ele, pelo fato de que as empresas, diante das enormes dívidas acumuladas antes, procuram, após a eclosão da crise, “minimizar o endividamento ao invés de maximizar lucros”.

Em particular, ele explica desse modo – bem detalhadamente – a recessão prolongada da economia capitalista no Japão após o estouro da bolha imobiliária em 1990.

Procura-se mostrar na nota que acompanha esta postagem que ele descreve bem o fenômeno, mas não o explica adequadamente. Pois, não é capaz de esclarecer porque se forma a bolha de crédito que antecede a crise e porque o investimento não se recupera depois que ela estoura. Eis que a sua explicação é de fato tautológica: o investimento não se recupera porque as empresas não querem investir, mas empregar os lucros para reduzir o endividamento.

Para encontrar uma explicação mais profunda do mesmo fenômeno recorre-se a um artigo de Esteban Maito em que ele estuda a crise e a recessão da economia capitalista no Japão a partir de Marx. Para fazê-lo, fornece-se um resumo da teoria da crise que se encontra no Livro III de O capital, indicando que ela é capaz de abarcar também o fenômeno atual da financeirização. Investiga-se, ademais, as consequências da intervenção do Estado no andamento da crise contemporânea. Mostra-se que, se ela evita, impedindo a destruição do capital, uma grande quebra das empresas e a derrocada do sistema financeirizado, faz com que surja uma recessão que se prolonga indefinidamente.

Para acessar a nota clique aqui:  Estado e finança nas grandes crise da acumulação de capital.

O “rentismo” e a léxis de O capital

17/10/2017

Faz-se nesta nota um comentário sobre um ponto bem específico contido no livro mais recente de François Chesnais, Finance capital today. Como fica evidente já pelo título, esse autor pretende atualizar, com originalidade e cem anos depois, a tese de Rudolf Hilferding – e de Vladimir Lenin – sobre o caráter do capitalismo na era do imperialismo. Porém, apesar de sua pretensão evidente de se manter fiel aos escritos de Marx, considera que não pode escusar o emprego da expressão “capital rentista”. Ora, ao proceder assim, ele adiciona uma “nova categoria” à ordem de exposição de O capital. Esta postagem encaminha uma nota crítica que contesta a validade desse procedimento que não é só dele, mas de muitos marxistas. Argumenta-se que a ideia de um “capital rentista” provém de Keynes e viola fragrantemente a léxis de O capital.

A nota se encontra aqui: O rentismo e a léxis de O capital

Uma certa economia política neoliberal

01/10/2017

O neoliberalismo é um sistema normativo que pretende estender a lógica da concorrência capitalista para todas as relações sociais. Os neoliberais estão convencidos de que o mercado fornece um paradigma de sociabilidade adequado para a sociedade como um todo. Em consequência, esforçam-se continuamente mudar as instituições existentes de tal modo que elas passem a incentivar a lógica competição. Em sua perspectiva, por exemplo, os governantes e os governados devem se comportar como se fossem empresas.

Esta postagem discute um pouco como os neoliberais querem enfrentar o baixo crescimento da economia capitalista no Brasil. Para eles, ela cresce pouco porque as suas instituições – especialmente estatais – não favorecem a busca do auto interesse, a concorrência e o esforço produtivo. Para mudar essa situação, propõem uma série de políticas sociais e econômicas. E elas são do seguinte tipo: conter o crescimento das despesas primárias do governo; reduzir a carga tributária; desregular o mercado de força de trabalho; encurtar a cobertura da previdência social; abrir a economia para a competição internacional; garantir melhor o direito de propriedade etc.

Na nota que se está publicando junto dessa postagem, indica-se que essas propostas não só abrem caminho para a normatividade da competição desenfreada, mas também – e de modo central – buscam obter uma elevação da taxa de lucro por meio do aumento do aumento da eficiência do capital industrial na apropriação e na retenção de mais-valor. Ao examiná-las, busca-se mostrar aqui que essas políticas podem, sim, ter algum resultado no sentido de elevar a taxa de crescimento do PIB. Porém, elas terão efeitos deletérios na sociedade brasileira: reduzirão os salários reais, diminuirão os gastos sociais do Estado, piorarão a repartição da renda, agravarão as tensões sociais, produzirão barbárie, fortalecerão as alternativas fascistas.

O texto da nota está aqui: Uma certa economia política neoliberal

O mergulho da galinha

14/08/2017

O padrão de crescimento de longo prazo da economia capitalista no Brasil tem sido caracterizado como “voo de galinha”. Em postagem anterior, discutiu-se porque ela subiu no poleiro, voou mais alto e despencou. Nesta, questiona-se se ela mergulhou na lagoa dos patos por moto próprio ou porque foi malconduzida.

Como bem se sabe, ela se encontra quase-estagnada desde o começo dos anos 1980, quando se esgotou o empuxo dado pela industrialização por substituição de importações. Desde então, o seu ritmo de expansão tendeu ao medíocre, ao rastejante. Essa tendência, entretanto, foi aparentemente contrariada no período entre 2004 e 2010. O impulso para voar mais alto, entretanto, não durou…

Agora, ao final da segunda década do século XXI, está já claro que o padrão saltitante, às rés do chão, está sendo retomado – mesmo se este ainda demora, mesmo se a galinha está com enorme dificuldade de sair da depressão. Nesta postagem, discute-se um pouco mais sobre as causas do mergulho ocorrido a partir de 2010. O que explica, afinal, em primeiro lugar, a nova década perdida possível? O desequilíbrio orçamentário do governo ou a queda da taxa de lucro?

O artigo se encontra aqui: O mergulho da galinha – por si ou por causa dela?

Transformação: um problema!?

01/08/2017

O problema é velho, vetusto, centenário, mas na verdade é totalmente falso. A principal crítica dirigida à O Capital nunca foi mais do que um mostrengo teórico. Ela tentou destruí-lo e, para tanto, usou as armas da matemática que abona o modelo de equilíbrio geral. Mas a formulação é completamente estranha à lógica de O Capital.

Esta é, em síntese, a tese de Fred Moseley sobre o assim chamado “problema da transformação” que aborreceu o marxismo durante mais de um século. Essa crítica ignora completamente, segundo ele, o método expositivo de O capital, o qual nunca separa valor e preço, valor e dinheiro, operações estas analiticamente necessárias para converter a passagem dos valores para os preços de produção em tal “problema”.

Não existe na obra de Karl Marx, pois, uma representação do sistema de reprodução em valores e uma representação desse mesmo sistema em preços de produção, de tal modo que a conexão entre eles precisa ser investigada matematicamente…

Moseley desenvolveu essa tese de modo pleno no livro Money and Totality – A macro-monetary interpretation of Marx’s logic in Capital and the end of the ‘transformation problem’, publicado pela Brill em 2015 e, em 2016, pela Haymarket. A argumentação do autor norte-americano, se não é revolucionária, vem a ser pelo menos muito auspiciosa: eis que ela dá uma boa paulada no mostrengo alimentado durante muitas décadas pelo pensamento neoclássico. Por isso, duas resenhas desse livro foram já publicadas no Brasil. Uma delas, de Bruno Hofig, saiu na revista Mouro e a outra do mantenedor deste blog foi publicada na revista Marx e o Marxismo. Ambas estão aqui republicadas:

Hofig – Resenha de Money and Totality

Prado – Resenha de Money and Totality

Austeridade e keynesianismo

16/07/2017

Publica-se aqui a tradução de uma postagem muito interessante de Michael Roberts, a qual foi divulgada recentemente (13/07/2017) em seu blog The next recession. Ela se intromete criticamente no debate muito atual entre os economistas partidários da austeridade e os economistas keynesianos sobre a melhor forma de enfrentar uma recessão profunda – estagnação prolongada, depressão – tal como a que abateu a economia mundial a partir da crise de 2007/2008 e que vem se demorando até o presente. E o faz de uma perspectiva marxista.

O seu texto curto discute dois pontos centrais entrelaçados: 1º) a depressão é causada – ou aprofundada – pelas políticas de austeridade?; 2º) a política keynesiana de gastos públicos pode mesmo tirar o sistema econômico da depressão?  A sua discussão tem como referência principal a situação econômica da Europa, mas ela tem um rebatimento evidente e muito importante na situação atual da economia capitalista no Brasil.

Os economistas keynesianos costumam classificar a austeridade como mero produto de ideologia conservadora ou como decorrência desastrada de má teoria econômica. O texto de Michael Roberts contesta essa tese, assim como, também, a enorme pretensão da teoria keynesiana. Procura mostrar, por um lado, que as evidências empíricas e históricas não abonam uma grande eficácia do multiplicador dos gastos públicos. Sustenta, por outro lado, que a política de austeridade tem, sim, uma racionalidade e que esta é capitalista por excelência. Eis que visa rebaixar ao máximo o salário real seja diretamente, reduzindo os ganhos dos trabalhadores, seja indiretamente, comprimindo os gastos sociais do Estado.

Sustenta que a crise e a recessão prolongada ora observadas devem ser explicadas, em última análise, pela baixa da lucratividade e pelos óbices existentes à retomada da acumulação de capital – e não pela carência de demanda efetiva. Eis que essa última é consequência e não causa última das crises em geral. Sugere, em consequência, que a esquerda deve deixar de se guiar pelas miragens geradas pela teoria de John M. Keynes, passando a se orientar melhor pelos ensinamentos, muito mais sólidos, que vem de Karl Marx. Ele recomenda, também, que se leia o livro de José A. Tapia, cuja imagem de capa está aqui também reproduzida.

O texto de Michael Roberts se encontra aqui: A reversão da austeridade acaba com a depressão?