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O mergulho da galinha

14/08/2017

O padrão de crescimento de longo prazo da economia capitalista no Brasil tem sido caracterizado como “voo de galinha”. Em postagem anterior, discutiu-se porque ela subiu no poleiro, voou mais alto e despencou. Nesta, questiona-se se ela mergulhou na lagoa dos patos por moto próprio ou porque foi malconduzida.

Como bem se sabe, ela se encontra quase-estagnada desde o começo dos anos 1980, quando se esgotou o empuxo dado pela industrialização por substituição de importações. Desde então, o seu ritmo de expansão tendeu ao medíocre, ao rastejante. Essa tendência, entretanto, foi aparentemente contrariada no período entre 2004 e 2010. O impulso para voar mais alto, entretanto, não durou…

Agora, ao final da segunda década do século XXI, está já claro que o padrão saltitante, às rés do chão, está sendo retomado – mesmo se este ainda demora, mesmo se a galinha está com enorme dificuldade de sair da depressão. Nesta postagem, discute-se um pouco mais sobre as causas do mergulho ocorrido a partir de 2010. O que explica, afinal, em primeiro lugar, a nova década perdida possível? O desequilíbrio orçamentário do governo ou a queda da taxa de lucro?

O artigo se encontra aqui: O mergulho da galinha – por si ou por causa dela?

Transformação: um problema!?

01/08/2017

O problema é velho, vetusto, centenário, mas na verdade é totalmente falso. A principal crítica dirigida à O Capital nunca foi mais do que um mostrengo teórico. Ela tentou destruí-lo e, para tanto, usou as armas da matemática que abona o modelo de equilíbrio geral. Mas a formulação é completamente estranha à lógica de O Capital.

Esta é, em síntese, a tese de Fred Moseley sobre o assim chamado “problema da transformação” que aborreceu o marxismo durante mais de um século. Essa crítica ignora completamente, segundo ele, o método expositivo de O capital, o qual nunca separa valor e preço, valor e dinheiro, operações estas analiticamente necessárias para converter a passagem dos valores para os preços de produção em tal “problema”.

Não existe na obra de Karl Marx, pois, uma representação do sistema de reprodução em valores e uma representação desse mesmo sistema em preços de produção, de tal modo que a conexão entre eles precisa ser investigada matematicamente…

Moseley desenvolveu essa tese de modo pleno no livro Money and Totality – A macro-monetary interpretation of Marx’s logic in Capital and the end of the ‘transformation problem’, publicado pela Brill em 2015 e, em 2016, pela Haymarket. A argumentação do autor norte-americano, se não é revolucionária, vem a ser pelo menos muito auspiciosa: eis que ela dá uma boa paulada no mostrengo alimentado durante muitas décadas pelo pensamento neoclássico. Por isso, duas resenhas desse livro foram já publicadas no Brasil. Uma delas, de Bruno Hofig, saiu na revista Mouro e a outra do mantenedor deste blog foi publicada na revista Marx e o Marxismo. Ambas estão aqui republicadas:

Hofig – Resenha de Money and Totality

Prado – Resenha de Money and Totality

Austeridade e keynesianismo

16/07/2017

Publica-se aqui a tradução de uma postagem muito interessante de Michael Roberts, a qual foi divulgada recentemente (13/07/2017) em seu blog The next recession. Ela se intromete criticamente no debate muito atual entre os economistas partidários da austeridade e os economistas keynesianos sobre a melhor forma de enfrentar uma recessão profunda – estagnação prolongada, depressão – tal como a que abateu a economia mundial a partir da crise de 2007/2008 e que vem se demorando até o presente. E o faz de uma perspectiva marxista.

O seu texto curto discute dois pontos centrais entrelaçados: 1º) a depressão é causada – ou aprofundada – pelas políticas de austeridade?; 2º) a política keynesiana de gastos públicos pode mesmo tirar o sistema econômico da depressão?  A sua discussão tem como referência principal a situação econômica da Europa, mas ela tem um rebatimento evidente e muito importante na situação atual da economia capitalista no Brasil.

Os economistas keynesianos costumam classificar a austeridade como mero produto de ideologia conservadora ou como decorrência desastrada de má teoria econômica. O texto de Michael Roberts contesta essa tese, assim como, também, a enorme pretensão da teoria keynesiana. Procura mostrar, por um lado, que as evidências empíricas e históricas não abonam uma grande eficácia do multiplicador dos gastos públicos. Sustenta, por outro lado, que a política de austeridade tem, sim, uma racionalidade e que esta é capitalista por excelência. Eis que visa rebaixar ao máximo o salário real seja diretamente, reduzindo os ganhos dos trabalhadores, seja indiretamente, comprimindo os gastos sociais do Estado.

Sustenta que a crise e a recessão prolongada ora observadas devem ser explicadas, em última análise, pela baixa da lucratividade e pelos óbices existentes à retomada da acumulação de capital – e não pela carência de demanda efetiva. Eis que essa última é consequência e não causa última das crises em geral. Sugere, em consequência, que a esquerda deve deixar de se guiar pelas miragens geradas pela teoria de John M. Keynes, passando a se orientar melhor pelos ensinamentos, muito mais sólidos, que vem de Karl Marx. Ele recomenda, também, que se leia o livro de José A. Tapia, cuja imagem de capa está aqui também reproduzida.

O texto de Michael Roberts se encontra aqui: A reversão da austeridade acaba com a depressão?

Dinheiro fictício III

03/07/2017

A questão do dinheiro na obra madura de Marx tem sido objeto de grandes controvérsias. E estas parecem não chegar a bom termo.  Aqui se faz um esforço para esclarecer a confusão entre o dinheiro como “medida de valor” e o dinheiro como “padrão de preços”. Eis que esse quiproquó – crê-se – está no origem da tese segundo a qual a teoria do dinheiro desse autor tornou-se anacrônica.  Por um lado, julga-se que, para Marx, o dinheiro configura-se sobretudo, necessariamente, como uma mercadoria real, ouro por exemplo. E que o dinheiro-papel, por não ser mais do que um representante do dinheiro-ouro na circulação, deve ser oficialmente nele conversível. Por outro, vê-se que o meio circulante hoje afigura-se como puramente fiduciário, ou seja, como não conversível em ouro. O artigo em anexo sustenta não só que essa opinião está errada, mas também que as defesas apresentadas de Marx estão em geral equivocadas.

O artigo se encontra aqui: Da confusão entre medida de valor e padrão de Preços

Curso sobre O capital

06/06/2017

Em comemoração aos 150 anos de O capital, a Boitempo realiza em São Paulo, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a quinta edição do Curso Livre Marx-Engels. Essa edição será dedicada à obra máxima de Karl Marx e transcorrerá nos dias 6, 7, 8 e 14 de junho de 2017. Nesse curso, organizado por Marcelo Carcanholo, será feita uma apresentação do conteúdo de O capital por meio de quatro aulas. A primeira, que versará sobre a estrutura da obra e sobre o método, será dada por Eleutério Prado. A segunda, que tratará da teoria do valor contida nessa obra, será dada por Leda Paulani. A terceira, que discutirá o capital e o fetichismo, assim como a historicidade, as classes sociais e a luta de classes, será oferecida por Marcelo Carcanholo. Finalmente, a última, que trata das leis tendenciais – capital, acumulação e crise, será dada por Jorge Grespan.

Os slides da apresentação de Eleutério Prado podem ser encontrados aqui: Estrutura da Obra e Método de O Capital

Voo nominal e voo real

06/05/2017

Na postagem anterior, Voou mais alto e despencou, mostrou-se que o movimento descendente da economia capitalista no Brasil a partir de 2011 – e que, ao cabo de três atribulados anos, resultou numa depressão – podia ser explicado pela lei geral da acumulação capitalista de Karl Marx. Ora, essa depressão, que se tornou patente a partir de 2014, aprofundou-se tanto que, estando em maio de 2017, ainda não se sabe bem quando vai terminar. Na postagem que aqui se apresenta, Voo nominal e voo real: a galinha em ação, faz-se um esforço preliminar para explicar o comportamento do nível de preços no período entre 2000 e 2016. Em particular, quer-se explicar a ascensão da inflação a partir de 2006 e seu acelerar a partir de 2010. Para atingir esse objetivo, emprega-se a teoria de inflação proposta por Anwar Shaikh em sua obra magna, Capitalism. Diferente de outras teorias mais conhecidas, a teoria de inflação formulada por esse autor está fortemente inspirada na economia política clássica e na crítica da economia política de Marx.

A nota está aqui: Voo nominal e voo real – A galinha em ação

Voou mais alto e despencou

21/04/2017

            Nos anos 1990, alguns economistas passaram a empregar o termo “voo da galinha” para indicar o padrão de crescimento da economia capitalista no Brasil. Entretanto, entre 2004 e 2010 pareceu que esse padrão havia mudado de modo radical; pareceu que não podia ser mais visto como o voejo de uma galinha comum, mas como o adejo de uma galinha de angola. Pois, esta última é capaz de subir mais, ficar mais no alto e, assim, ir bem mais longe.

           Na verdade, o padrão de crescimento mudara apenas temporariamente. Por assim dizer, a ave que cisca no quintal do capitalismo mundial aproveitara uma oportunidade, subira no poleiro para daí poder se lançar um pouco além…. Porém, após um animado voo que não durou tanto assim, despencou rumo ao chão; de fato, como bem se sabe, caiu na lagoa dos patos e afundou. Agora, ela luta para voltar ao velho terreiro e se tornar novamente capaz de voos provavelmente tão rasos e intermitentes como aqueles que foram observados entre 1990 e 2003.

Para ler uma nota que procura uma explicação para o voo mais longo da economia capitalista entre 2000 e 2016 clique aqui: Subiu no poleiro, voou mais alto e despencou

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